vendredi 14 juillet 2017

Praça da canção (1965) – Manuel Alegre – Publicações Dom Quixote, 2015 – Prefácio de José Carlos de Vasconcelos - O uso da língua e a sua relação com os leitores 149

Modificado a 16 de Julho de 2017.
Como um prefácio-propaganda se instala no sistema crítico de apresentação publicitária de uma obra até fazer dela uma ideologia sem capacidade para ver (de ver); um texto “cego” por ser a cegueira o argumento da propaganda prefacial e elogiosa que quer (re-)lançar uma obra que significou, e significa, mas que representa uma poesia da poesia segundo a tradição do vate, sem que tenha em vista qualquer especificidade do discurso a não ser o da poesia que se faz poesia e que se ilustra com os “actos de linguagem” da banalidade heróica e cantante – cantabile, diz José Carlos de Vasconcelos. Estes poemas de Manuel Alegre estavam ligados à tradição do fado estudantil, tradição que engloba uma ideia tradicionalista da música e da letra dos fados que pretendem a uma lamentação vocal lírica e amorosa, pessimista e saudosista na sua vertente mais conservadora e fixadora de um estatuto do estudante universitário que, já no anos de 1965, não tinha outra razão de ser senão a de conservar os materiais ideológicos da supremacia estudantil na cidade dominada pelos “doutores”, que nem eram futuros doutores mas já doutores a partir da segunda matrícula universitária. Uma aberração para a época que foi continuada, apesar do conteúdo oposicionista dos textos de Alegre e do que eles significaram, por não ter havido outra forma de expressão ou por não ter sido possível uma forma de expressão mais pronta a uma revolução social que tivesse em vista uma revolução dos costumes dos estudantes e, sobretudo, da sociedade portuguesa em geral. Os escritores fora da academia universitária, como, por exemplo, Miguel Torga, escreviam poesia sem a mesma noção colectivista e “animista”. A colectividade está instalada na poesia de Manuel Alegre como uma fuga, uma cegueira imposta pelo sistema que valorizava este tipo de oposição, se se chama de oposição um texto de “tradições heróicas” e poéticas que estão presentes neste livro de poesia. Só um texto deste género poderia ter sido publicado num sistema que dirigia a luta para se confrontar a uma oposição de luta imediata, aquela que se designava por luta e que afastava outros sistemas ou propostas de oposição mais flagrantes, mais profundas e menos explícitas? Outros tipos de poesia existiam em 1965 mas não tiveram a mesma “consumabilidade”. A visibilidade estava para os dois lados: para os leitores e para o sistema repressivo que via no acto poético de Manuel Alegre a “verdadeira” oposição, por corresponder a uma atitude policial repressiva e primária, aquela que o sistema político praticava com violência e de forma imediata; e que aplicava ao imediatismo da poesia; o sistema repressivo, autoritário e católico improgressista respondia com a repressão, a prisão, a censura e a proibição, por todas as formas violentas possíveis. As canções-fados saídos da poesia de Manuel Alegre respondiam a este sistema poético imediato e concludente para a maioria das pessoas, de uma parte dos estudantes que, sendo contrários ao sistema, viam nos poemas de Manuel Alegre uma “voz” que os representava, na medida em que nada se fazia de imediato de igual potencialidade, e que pouco servia para os representar. Manuel Alegre foi pioneiro assim como os seus poemas na criação de uma “recitatividade” compreendida pela imediatez fadista estudantil que o adaptou; adapta-se por ser “cantabile”, de mensagem directa numa época em que a literatura poética - e não só a poética - se enchia de glória e de grandeza heróicas. (Outras formas literárias exprimiam o contrário da grandeza e do heróico) Poesia “necessária”? Se se examina o estado de abandono mental dos habitantes houve alguma razão para uma intervenção poética deste tipo “heróico”, como se a palavra – e José Carlos de Vasconcelos diz que Alegre acredita na força da palavra (e o crítico também), deste tipo de palavra, por não se tratar de qualquer efeito inovador da palavra mas do efeito dela baseado no que se chama, indevidamente, a tradição, uma tradição que vem das canções trovadorescas – como se a palavra tivesse um sentido recitador insuflador de movimento nas multidões, aqui reduzidas a uma parte dos estudantes a que José Carlos de Vasconcelos faz referência, e a uma academia que vivia entre futebol, borga, repúblicas e masculinidade, sem referências a um posicionamento que fosse mais reivindicativo e consciente, no sentido político. Por não haver margem para uma luta mais directa ou de programa mais vasto? Alguns lutaram directamente e pagaram caro; é uma realidade. A política de oposição estava na mão de poucos e, sem dúvida, nas mãos de Manuel Alegre que, com estes textos, entrou num processo de divulgação do seu credo político enfrentando as censuras e os males políticos que daí derivaram. As consequências estavam à vista; de Manuel Alegre a José Afonso a Adriano Correia de Oliveira a canção tradicionalista de Coimbra e a poesia aqui tratada confrontaram-se com os poderes e sofreram as represálias correspondentes. Daí que esta edição dos cinquenta anos da primeira publicação seja acompanhada por um poema de Hélia Correia e de Jaime Rocha a ilustrá-la, com uma poesia intitulada “Para Manuel Alegre”, poesia que vai no mesmo sentido “heróico” da palavra que constrói grandeza – “Uma grandeza cobrindo e descobrindo / outra grandeza, / conforme o vento passa / e nos responde”, p.11 – e que se inscreve na poesia de homenagem: a poesia serve para isso. O poético é duas vezes glorioso: na poesia de origem e na homenagem proposta pelos dois escritores. A palavra é discurso de manutenção de um posicionamente esclarecido pela atenção que se presta a este tipo de poesia que definiu uma época e um estatuto de publicidade de um “estado de alma” – em vez de se chamar de um “estado mental adequado ao acto repressivo que a política salazarista impunha” – um “estado de alma” que é benevolente através dos seus “actos de linguagem” que falam de uma Pátria, de patriotismo, de guerra, de morte de um soldado, numa linguagem directa, em termos soi-disant poéticos que revelam, apesar de tudo, uma atitude de passividade em relação ao que as palavras são, julgando que as palavras têm uma força própria; basta colocá-las em situação poética para que elas ganhem um valor de manifestação; valor que elas não têm; as palavras não têm força específica a não ser quando, canalizadas por ideologias, caiam na tradição do discurso “heróico” e de choro pela pátria que se perde, e pelos “povos” que anseiam à liberdade. A poesia de Manuel Alegre utiliza os ingredientes do sentimental nacionalístico que a poesia retorizada propõe como fórmula “popular”. Não se pensava, em 1965, que a poesia pudesse ser “comercial”. A sua intenção nada tem de “comercial” mas de impulso à luta política, embora, com o passar dos tempos, este livro se tenha transformado num “documento ideológico, político e sentimental representativo da pré-Revolução de 1974”. Diz José Carlos de Vasconcelos que o autor e o texto são dois mitos. Que mitos? Como se criam mitos no século XX? O crítico procede por tradicionalismo e faz funcionar o valor da obra criando-lhe a força do mito; o que significa que os “mitos actuais” são sistemas de informação publicitária e propagandista que levam a obra ao conhecimento de várias gerações: “sucessivas gerações a leram, ouviram, se calhar cantaram, de certo modo viveram. E isto diz muito, se não tudo.”, p.13. Acrescenta José Carlos de Vasconcelos: “Os versos de PdaC andaram, desde sempre, de boca em boca, de mão em mão, de coração em coração, em simultâneo singular expressão individual de um poeta e vigorosa voz coletiva de um povo.”, pp.13 e 14. José Carlos de Vasconcelos evoca Alcácer Quibir como referência da perda, “que no seguimento de outros sinais a guerra colonial prenunciava.”, p.14, além de chamar ao poeta um profeta que teve a premonição de anunciar o Abril de 74. A poesia serve para este tipo de oratória, de discurso explicativo que pede que uma obra seja significativa pelos seus indícios “exteriores” – aquilo que se lê – sem que se faça uma análise do que a obra transmite e como transmite. O singular da obra é o de ter sido uma forma de comunicação pessoalizada de um posicionamento em relação ao sistema político, tendo em vista o uso do poético para transmiti-lo, e que a poesia tradicionalista tinha e tem; leia-se o poema-homenagem de Hélia Correia e de Jaime Rocha. Os autores escolheram a forma de poema para dizê-lo quando o podiam ter dito de forma “prosaica”, embora o prosaico não transmitisse a mesma noção de grandeza. Quer isto dizer que esta poesia transmite grandeza, heroísmo, auto-satisfação política, definição de um pensamento de oposição ao regime. A poesia, mais do que a prosa, serve para letra de fados, o lado empolgante e rítmico facilitado pelos “actos de linguagem” do autor Manuel Alegre. O facto de assinalar esta lateralidade do poema não me afasta da convicção de que a obra serviu e que ainda serve, politicamente falando. Não é o autor, como pessoa, que está aqui analisado, mas o que resulta do uso da poesia para a grandeza da luta política e como se elabora essa grandeza que, facilitada pelos “actos de linguagem” tradicionalistas, produz uma emotividade “cantabile” que a aproxima das pessoas, dos estudantes – não do povo!; o povo não sabia, não tinha consciência do poético; é de luta académica que se trata; e luta houve! O texto do prefaciador inscreve-se na defesa do tradicional e do passado do poeta e do seu texto; é o prefaciador que fala do homem Manuel Alegre e lhe dá um estatuto apropriado ao texto.
Outra poesia da época tê-lo-ia feito de modo menos explícito?, ou o explícito fazia parte – e faz – do que é necessário dizer-se, sobretudo se a funcionalidade da poesia é a de se colocar na oposição, e se a oposição não se pronuncia senão de modo directo? A poesia serviu de transporte ao político, a poesia é uma forma expressiva que, por “necessidade”, afirmou o político para “dar a ver”; é no “dar a ver” que a questão se coloca, se bem que, deste modo, se coloque na cadeia da ideologia, ou da luta ideológica, se quiserem, mas usando de “actos de linguagem” que definem a situação de modo claro; para isso, sair da sua funcionalidade directa e imediata seria diminuir o impacto que teve. O que é, hoje, a análise crítica do poético e do ideológico em relação à poesia de Manuel Alegre? A estratégia de José Carlos de Vasconcelos está muito mais interessada em ressalvar a poesia (e o poeta; o crítico fala dos poemas e do autor como pessoa pública) do que em mostrar o que ela foi, para que serviu e que agilidade linguística usou para pôr-se em prática. É o examinar a funcionalidade comunicativa de um posicionamento político e poético das palavras que encaminhou o texto para fora de um poético complexificado, pensando que o político foi, e é ainda, prioritário para justificar o acto poético e o acto social de Manuel Alegre. E que o político se exprime pelo poético assim como a análise do prefaciador se examina pelo valor do poético. Se se exprime pelo poético é por ser a poesia um veículo que, deste modo, aceita e transmite a ideologia, mais na sua época do que hoje, apesar do esforço de José Carlos de Vasconcelos em demonstrar o contrário; se em 1965 o escritor exprimia directamente uma “necessidade política” através da poesia, hoje o crítico exprime uma carga ideológica que a poesia, pensada pelo poeta e pela sociedade numa oposição “urgente”, não veiculava para além da época; se veiculava uma “urgência” era a da época; não a de hoje. Os “actos de linguagem” políticos e poéticos eram entendidos de forma tradicionalista por vários factores da sociedade. A poesia “engagée” em língua portuguesa poderia ter dado outros impulsos aos “actos de linguagem”, falando de circunstâncias mais vastas? O comportamento poético que se escrevia na territorialidade portuguesa, em 1965, exprimia um “malaise” poético sem uma linguagem directa, embora crítica; mas se crítica não englobava a “necessidade” de dizê-lo de forma tradicionalista e “cantabile”, pronta para a canção-fado, como se em Coimbra tudo fizesse referência ao fado estudantil. Se o poético político foi prioritário já não o é por ter sido uma resposta útil a um regime e numa época que viu crescer a “necessidade” de pronunciar uma poesia heróica sobre a grandeza da luta. Nisto não diminuo o acto poético de Manuel Alegre; quem o diminui é José Carlos de Vasconcelos que quer admitir que o trabalho poético ainda se lê, hoje, como referência ao homem Manuel Alegre e à melhor poesia, da época e de hoje, numa intemporalidade impossível. Por receio de desqualificar o poético do escritor? Ou para manter a prioridade ideológica e política do acto poético de 1965? A prioridade ainda lá está, é uma evidência, mas refere-se à época. Só dentro do compromisso com a época é que se entende o trabalho do poeta e do poema. Se teve uma função é a que teve e não a que tem, hoje, mesmo que se comemorem os cinquenta anos da primeira edição. Deslocar a prioridade para os dias de hoje é uma procura de um posicionamento crítico saudosista e passado, valorizador do que representa, agora, e desvalorizador do que foi em 1965. A obra teve o seu tempo e representou uma parte dos estudantes universitários de Coimbra, à juste titre. A ligação trovadoresca é emitente de uma tradição que valorizava o poético saudosista da poesia cantante cujo “ofício” é o do canto tradicional de conotação popular. Os termos são uma evidência poética com que se comemora uma posição. São auto-definidores, afirmativos de uma “luta” que o poeta exprime explicitamente. A poesia teve sempre esta funcionalidade, pelo menos na expressão mais simples e directa de um acto “engagé”. O crítico voltou a escrever sobre o autor no “Jornal de Letras” de 21 de Junho a 4 de Agosto de 2017; fala deste livro e de “O canto e as armas”: “... a que o establishement literário longamente dominante sempre quis colar o rótulo de datados e menores. Ou seja: tendo como destino imediato ou próximo o caixote do lixo da literatura. E “próximo” seria, no máximo, depois de ultrapassada a circunstância histórica que tais livros também testemunhavam e combatiam. Ora, aconteceu exactamente o contrário: “Praça da Canção” e “O Canto e as Armas” estão “vivos”, perduraram e perduram, enquanto não há memória nem rasto da generalidade das obras que os porta-vozes desse establishement mais enalteciam, e, como possível exceção a confirmar a regra, das suas próprias obras.” Não sei a quem se refere o crítico, acrescentando: “... a afirmação da pátria e sua independência, do povo, sua dignidade e seus direitos; e da Poesia e de poetas maiores, portugueses e alguns estrangeiros; da paz contra a guerra; da liberdade e outros valores supremos; de gente e territórios, geográficos e afetivos, de Coimbra ao Alentejo e aos Açores; do amor e da morte, com expressão singular, por exemplo, em Senhora das Tempestades. Etc., etc. Épico, mas deiar de ser lírico (?!; mas sem deixar de ser lírico?; gralha do jornal) e até confessional. Aqui está o retrato que José Carlos de Vasconcelos força a admitir; o facto de que os livros se vendem e que as gerações os lêem é significativo mas nada diz sobre o que esses livros encerram. Um livro como “Le petit prince” continua a vender-se e não é uma obra que, por esse único factor, esteja directamente impregnado de literatura, a não ser que se queira con-fundir e determinar pelo êxito da leitura e das vendas o processo literário. A obra de Manuel Alegre exprimiu a “necessidade” de que falei acima, exprimiu pelo veículo poético o acto que outros poetas não exprimiram da mesma forma explícita. Um risco. A necessidade política teve um tratamento de risco. O acto poético, e outras formas de expressão que não só a poesia, presta-se ao “necessário”, embora a poesia se preste à grandeza poética heróica, como serve de veículo a várias ideias que nada têm a ver com ela apesar de a poesia ter transmitido o nobre, o grandioso, as homenagens, mesmo militares, o guerreio, o patriótico, o heróico... A poesia teve o seu lado recitativo teatral que a elevou a dicionário da expressão valorizada pelas ideologias de todas as políticas. O crítico escreve: “O prémio Camões a quem o merece...”. Os prémios são para quem os merece, sobretudo se o homem, visto por José Carlos de Vasconcelos, está a par da obra. Quem recebe o prémio Camões? A obra ou o escritor? É o escritor através da obra que escreveu; a homenagem está apropriada ao que os prémios determinam, sobretudo se atribuídos segundo critérios ainda ideológicos que marcam um posicionamento dos críticos em relação à obra. Manuel Alegre disse que já o teria merecido, por serem os escritores os que agradecem os prémios por que esperaram. Manuel Alegre não se via fora do prémio Camões. Os prémios confirmam os valores, atribuem a ciência do valor ao que até aí estaria sem o mesmo valor, na medida em que o prémio caracteriza e impõe um cânone, uma medida, uma bitola, uma grandeza nacional. A obra merece o prémio (e o homem; não o escritor que a escreveu; é o homem que José Carlos de Vasconcelos põe diante de nós, por ser uma pessoa pública paralela ao escritor) que se atribui a quem se prepara para recebê-lo. Outras literaturas não incluem a pretensão aos prémios e ao valor acrescentado pelos prémios. Muito menos como “mito” (!) actual.
A obra poética de Manuel Alegre faz parte da literatura portuguesa, está bem claro. Não é o fazer parte que a qualifica; antes, o fazer parte classifica, sem que se saiba, por princípio, se o pertencer à literatura lhe dá mais valor. Pertencer é puramente pertencer por desejar inscrever-se na sequência histórica das literaturas que se formaram e que se inscreveram (e inscrevem) nas correntes múltiplas das literaturas produzidas na territorialidade portuguesa. Estes textos fazem parte do literário. Não é por isso que a crítica tem legitimidade para afirmar o que José Carlos de Vasconcelos afirma em termos elogiosos na crença de que a obra de Manuel Alegre não seja considerada como o crítico pensa que deveria. A divergência está entre o que José Carlos de Vasconcelos pensa dela e o que outros críticos poderão pensar da obra – não falo do homem público; centro-me num trabalho-ensaio literário sobre o que é a crítica, como se exprime e a propósito de que obras. A prioridade dada ao escritor e ao merecimento do prémio Camões é uma atitude que José Carlos de Vasconcelos quer pôr em evidência para justificar a justiça e a legitimidade do prémio e da literatura que o recebeu. Existe uma ligação entre valores e mercados, entre opiniões dominantes e forças dominantes que têm capacidade para determinar quem recebe o prémio Camões. Está aí a dificuldade da gestão dos valores da literatura em português, na medida em que o prémio atinge todos os escritores da língua portuguesa, e do que é significativo pôr em relevo pelas autoridades, mesmo se os júris fazem parte dos críticos, dos escritores ou dos professores próximos do literário; é o institucional que, não tendo muitos nomes a quem atribuir o prémio, ou não vendo a quem atribuir o prémio, levam à valorização de outros motivos, onde a escrita não é o único ponto de vista; nem sequer o ponto de vista independente por serem os prémios atribuídos a quem não se mostra independente-autónomo do institucional ou dos mercados financeiros. Os prémios valorizam o que as autoridades querem; pertencem ao domínio dos possuidores de regalias como os grandes senhores pagavam os artistas que os retratavam. Salvo que, os grandes senhores escolhiam os que poderiam pintá-los com vantagens de precisão, de veracidade, de atenção ao espiritual que o retrato representava. A escolha era-lhes facilitada pelo lado “artesanal” da obra que os pintores mais representativos incluíam nas obras, uma condição imediata do valor do pintor escolhido. O artesanal desapareceu da poesia, apesar da ligação da poesia de Manuel Alegre a uma tradição do canto trovadoresco.
Os escritores, sobretudo os poetas, fazem pelo património e fazem parte do património cultural, da matéria colectiva de uma territorialidade. Os escritores, escolhendo uma linguagem, referem-se à língua e ao conteúdo linguístico da língua, no sentido do mais “autêntico” ou vernacular que a língua transmite, se assim o decidirem. Os escritores sabem como funcionar com a língua básica, através da linguagem ficcional, para atingirem a finalidade escolhida. Se uma parte dos escritores se mostra aparentemente autónoma, será ainda preciso examinar se são autónomos em relação aos mercados e se são autónomos em relação à língua que os define como agentes territoriais da língua. É natural que Manuel Alegre se sinta honrado por receber o prémio Camões embora tivesse esperado por ele mais tempo do que o devido. O que é o devido, o que é que o social deve a um escritor? A resposta é dada pela soma institucional que o rodeia e que ele próprio fabricou. Manuel Alegre sabe que a sua poesia fabricou prestígio patriótico e político ao mesmo tempo que, através da sua ciência linguística, se colocou num terreno artístico de elogio do território como pátria e de “povo” como uma entidade colectiva ancestral e coesa, culturalmente incluída no “mito” português (mito criado mais pela palavra do que pela realidade mitológica portuguesa, que nenhum mito criou a não ser as referências à História que não cabem na fabricação de um mito moderno) ideia recorrente que dá à sua expressão o politizado que ele espera que o leitor encontre, através do corpo poético “heróico” (sendo o heroísmo um cliché) a que Eduardo Lourenço chamou “a nostalgia da epopeia” e que inscreve Manuel Alegre nos poetas da nacionalidade. Portanto, o prémio Camões já há muito lhe deveria ter sido atribuído. Os que se identificaram com a poesia de Manuel Alegre foram e são os leitores da classe média; nunca leitores saídos do que o poeta – e muitos outros – chama de “povo”. O povo português, essa entidade indefinida que atravessou os tempos sem se terem verificado as alterações socio-culturais da ideia de “povo”, representa hoje uma percentagem enorme de população sem contactos com o artístico “savantizado”, numa noção alargada a muitos grupos e classes sociais. Esta grande percentagem populacional sujeita-se a ouvir-ver o que os produtos colectivizados pelos mercados lhe fornecem. Manuel Alegre está fora desta influência; “povo”, para o poeta, é uma ideia do colectivo patriótico português significativa da base estrutural da nação; é o “povo” que a justifica.
Manuel Alegre usa, como os poetas de “intervenção”, de uma linguagem directa; se ela é metafórica é dentro das “imagens” fornecidas pelo já disposto no interior do que se considera a poesia lírica e heróica. A necessidade funcional da sua poesia aparece em primeiro plano, como uma sensibilidade dramática, sendo o dramático uma confirmação que a linguagem académica poética transmite ao sentimento acompanhado pela dicção ideológica, ou simplesmente política. A ênfase recitativa faz parte deste dramatismo que nada tem a ver com a “nostalgia da epopeia”. Esta fórmula de Eduardo Lourenço é uma justificação-legitimação de um ente poético que se socorre da legitimidade de ter sido uma oposição pessoal ao governo repressivo para se legitimar como acção poética e patriótica explícitas. Manuel Alegre tem a ver com a inspiração da sua missão como poeta, garantida pela sua ética. A figura de Manuel Alegre poeta institucionalizou-se ao mesmo tempo que a sua poesia é hoje comemorativa da luta contra a ditadura. Neste contexto, como definir a poesia do escritor, se houver necessidade de defini-la à parte dos contextos político e ético, institucionalizados e “heróicos” de que ela trata? O seu carisma poético vem da imediatidade do acto poético que conduzia a uma “riqueza” política e ética, confundindo o poeta com o cidadão “engagé”, o militante agindo no domínio público. É uma figura propícia ao prémio Camões já que é um poeta institucionalizado. A crítica do elogio é, portanto, uma esquiva que evita o melodrama de analisar a obra poética pela linguagem, inventando uma grandeza política veiculada por uma poética conservadora e tradicionalizante. Outros modos de escrever, poesia ou prosa, existiram e existem. Que sejam do mesmo modo institucionalizantes é um exame a fazer caso por caso. A colectividade sabe, pelos seus mecanismos de poder, orientar-se e nomear os seus representantes. Manuel Alegre é um deles. A sua poesia é uma poética da dissimulação; ela dissimula-disfarça a sua poética mental auto-neutralizante com as afirmações heróicas que predominam como formas institucionais do poético; nesta dissimulação está o atirar para segundo plano do linguístico em si; a estrutura linguística denotadora do político afasta a poesia do poético e da sua crítica. Resta o comemorativo ético e épico, o empolgante, o heróico e o dramático do apelo intervencionista com o qual o poeta avivou os leitores. Esta poesia foi concebida para o colectivo anónimo dos portugueses, a grande massa do “nós” que se destinou à luta levada pelo poético pensado como heróico. A poesia de Manuel Alegre foi feita para um tempo imediato; um agora, uma poesia de circunstância baseada numa ausência de análise da linguagem embora baseada na “verdade” da língua que, sendo língua pátria, fala da territorialidade com a máxima “verdade”. A poesia-verdade significa que a obra de Manuel Alegre é uma ideia de luta social feita poema que se ilude com a grandiloquência do cliché poético. Porquê cliché? Por não haver nenhum sintoma de análise do que é uma escrita, sendo que a poesia é (como qualquer outra actividade expressiva), antes de tudo, uma controvérsia com o poético, não um favorecimento por causa dele, facilitado pelo poético que demande um “nós”. Esta poesia exprime os seus limites, não propõe uma expansão dos “actos de linguagem” poéticos mas uma fixação do valor da temática heróica, na redução a um entendimento explicativo do poético, um declamatismo compreendido imediatamente pelo leitor; basta-lhe o ritmo, se ritmo poético é este, uma forma cadenciada para o recitativo empolgante. A poesia está na sua demonstração e só aí. É uma construção poética imediata; o escritor não propõe uma mediação, a linguagem lê-se no seu ler-se. O limite exprime-se na finitude poética de populismo histórico.
Esta poesia transformou os momentos em realidades que o escritor quis imediatamente sentidos como históricos; a maior afirmação de uma sincera consciência política do momento (?; da sinceridade da escrita há muito a dizer) camufla a consciência do poético, do que se entende por escrever poesia. A forma tradicionalizante é um apoio que resulta redutor; não é sempre uma vantagem uma literatura servir-se do tradicional – que nada prova a não ser a inserção nela. Quanto ao valor do poético – ou de outros elementos do poético – a tradição limita, não constrói originalidade. José Carlos de Vasconcelos caracteriza a poesia de Manuel Alegre de tradicional julgando que lhe confirma um valor. É uma perspectiva de escusa de uma análise profunda do acto poético. Se se está no campo da literatura é porque a razão é suficiente para se julgar que tem valor a poesia que da tradição se serve. Que dela se serve sem que haja uma análise do poético; a ideia de poesia está preconcebida na realidade pátria, na sua História e na sentimentalidade apropriada ao “NÓS”. A poesia de Manuel Alegre continua a ideia do movimento poético do “Novo Cancioneiro”. A poesia lírica heróica é constituída por clichés, dedicatórias e explicações redutoras do que é o escrever. A poesia lírica tem o vício da sentimentalidade imediata de um discurso recitado na linguagem quotidiana. Uma lamúria que a produção poética repete como hinos à grandeza, à esperança e a outros motores sociais deformadores. Manuel Alegre não escapa a esta “sinceridade” declamativa estereotipada.
A poesia é uma manifestação do espírito, à maneira de Hegel, que, por definição conceptual, se determina concebendo-se. Se não houver concepção, o poético é gerido pelo “NÓS”, o que significa a implicação do vocabulário tradicional do soi-disant poético que se verifica na obra de Manuel Alegre. É neste sentido que o uso da forma tradicionalista obedece a uma renúncia do espírito para que se concretize mais vivamente a acção “necessária” e imediata que o texto implicava e que pressupõe, e se impõe, pela luta política; a finalidade dos poemas de Manuel Alegre está na imanência do político embora, paradoxalmente, afirmada pelo poético que aspira ao transcendente – e ao chamado (falsamente) de “épico” – e pelo lirismo heróico do “NÓS”. Ter escrito poesia foi uma escolha do lirismo “engagé” que utiliza as fórmulas da metáfora da luta pela palavra, pela tentativa de transcendência pelo uso da palavra como mensageira política explícita que inflama o colectivo – apesar da “urgência” ser caracterizada pelas consequências políticas dos seus textos e pela prática de uma imanência da palavra ligada à “necessidade” da função política imediata. A estrutura poética da poesia de Manuel Alegre não se conclui; está em defeito entre a “necessidade” e a forma corrompida pela tradição da metáfora banal. A finalidade deste poético é a de atingir o seu próprio conceito redutor. A finalidade da poesia de Manuel Alegre já foi realizada; não quer isto dizer que, hoje, não exista; a continuidade é-lhe assegurada pela institucionalização e pelos guardas da História da literatura portuguesa; esta poesia é a língua portuguesa histórica que conta com a História; as referências à pátria são uma necessidade do heróico, da presença de um “NÓS” colectivo português e aos soi-disant “mitos”, de Alcácer Quibir à invasão filipina. O seu “épico” é quixotesco, vistos os elementos que o formam, se ainda se pode chamar o “épico” para o caso; sobretudo pelo facto de que a linguagem de Alegre não conduzir a nenhum (eventual) “épico”; um épico impossível em 1965, apesar da insistência histórica. O que limita a poesia de Manuel Alegre é o que o autor lhe coloca como ente poético.
O termo “épico” é ainda utilizado em vários campos artísticos; o épico e o epopaico são classificativos de uma tendência da linguagem para a “grandeza mítica” que estaria em bom número de obras de expressão até hoje. Não creio analiticamente que se beneficie das estruturas que criaram o mítico e o épico na concepção do mundo de hoje. A tentativa explora os elementos do passado da formação do mito e do épico se bem que esses elementos, relacionados com um mental específico, não estejam mais presentes nas mentalidades e nos conhecimentos de hoje, de modo a criar um mito novo ou um texto épico.
A poesia lírica teve uma História fundamental nas expressões em geral. O lirismo pátrio é invocado pela “necessidade” e pela “urgência” política que Manuel Alegre sentia em 1965. Não quer isto dizer que a poesia tenha ganho uma perspectiva para uma abertura original e própria de um autor que se individualiza pela sua obra; a tradição lírica ocupou o ponto prioritário da “urgência” e nela ficou. Manuel Alegre é uma figura que se institucionalizou e que constituiu uma poética institucionalizada; as instituições formam património quando encontram um acordo entre as propriedades literárias e as propriedades próprias às instituições. Os aparelhos de Estado e de governo criam património e consideram o trabalho dos artistas como uma exibição positiva da “alma” (do carácter) da nação (do país). As instituições mumificam, destroem a impertinência, normalizam a questão da expressão autónoma, reduzem o artista a uma “representação superior da nação”. Pouco fica do artista depois desta mumificação; a arte do artista mumificado transforma-se numa regalia patrimonial e num monumento para uso patriótico. Aspectos negativos da concepção da expressão e a anulação do artista são as consequências do indiscutível que a institucionalização causa. Nem todos os artistas são mumificados do mesmo modo. Manuel Alegre é um protótipo do que é a poesia no sentido nacional e, como tal, uma disposição poética própria da territorialidade da língua e do mental social que a língua transmite (e transmitia). A grandeza da poesia de Manuel Alegre não está nos “actos de linguagem” simples; é uma grandeza que procura a monumentalidade heróica, que usa dos clichés do que se considerava a linguagem poética de luta. A poesia trata, entre outros assuntos, da luta política... Todos os assuntos são possíveis, embora a forma, o modo, a disposição mental sejam determinantes para que a “necessidade” do assunto seja transmissível sem corpo ideológico ou sem “retórica” literária. O que Manuel Alegre construiu, como poesia de luta, foi uma mensagem “empolgante”, declamativa e de compreensão imediata para que a força política passasse. A estrutura “empolgante” é uma manifestação pertinente do imediatismo.
O confronto pela leitura de um texto implica uma leitura política do texto que está em relação com uma infinidade de questões estéticas ou anti-estéticas e sociais, desde as relações com grupos institucionais até aos públicos diversos segundo os lugares, a idade, a perspectiva política, o uso da língua, a linguagem proposta... O conhecimento de um escritor faz-se “lendo-o”, sendo a leitura um introduzir do que está escrito numa série de planos que englobam a “politicidade” da obra, no sentido lato. No político está inscrito o que lá está e o que o rodeia; no que o rodeia estão as características que, saindo do texto-imanência, provocam problemáticas múltiplas que o leitor, para as perceber, terá que recorrer a uma interpretação global do que está escrito, desde a produção do texto até à sua concepção final. Para quê este texto?, para quem?, que resultado se obtém com o confronto?, onde está a proposta estética ou anti-estética?, sem que se julgue que o estético é uma apreensão valorizada pela emoção recolhida pela leitura. A emoção não tem unicamente a ver com a estética; tem a ver com o proposto em geral, não por estar inscrita na visibilidade estética do texto, mas por derivar do texto e por se re-encontrar no leitor; é este “transfert” do texto e do autor para o leitor que lhe cria uma emotividade, independentemente do trabalho estético (ou anti-estético) proposto. A estética incluída numa obra não tem correlatividade imediata com o emotivo. A correlatividade é mediata por ser através do proposto no artefacto que a emoção vem; aquilo que se chama “experiência estética” é uma expressão ambígua: a “experiência estética” será o confronto com os elementos estéticos (ou anti-estéticos) de uma obra, na medida em que, se esta expressão quer dizer que o observador-receptor tem, pela leitura, uma emoção criada a partir do estético, tendo assim a sua “experiência estética”, quer dizer que é a estética que cria a “experiência estética emotiva”, quando não existe correlação estética e “experiência emotiva considerada como estética”. A emoção pode vir de um texto explicitamente estético ou do seu contrário, de um texto sem pretensões estéticas. O resultado da proposta estética é, simultaneamente, uma experiência emotiva; não necessariamente uma “experiência estética”. Em muitos casos, a experiência emotiva não surge no leitor mesmo que o texto proponha um desenvolvimento estético (ou anti-estético) explícito. Para que a “experiência estética” se realize o observador-receptor terá que proceder a uma análise de outro tipo. A intenção estética pode denotar-se num artefacto literário de modo paupérrimo e encontrar leitores que sintam emoção. A estética de uma obra não é unicamente uma procura de emoção, e não tem uma correlação com o emotivo. Uma “experiência estética” não é, portanto, um resultado emotivo, ou satisfatório, ou admirativo... A leitura implica mais do que o emotivo e mais do que o estético ou o anti-estético. Se assim fosse, o anti-estético não despertaria emoção quando que as propostas anti-estéticas dão origem a emoções sem que elas sejam derivadas do reconhecimento unicamente da proposta estética. É a contradição, o paradoxo, a controvérsia, a forma, o assunto... entre a proposta estética (ou anti-estética) e o modo de os propor que cria a relatividade do emotivo no receptor. As emoções criativas que o leitor sente vêm de múltiplos factores que pouco têm a ver com a noção de estética. Esta noção está para o tratamento do Belo e do Sublime, se bem que, as ideias de estética cubram, hoje, uma noção do relacionamento dos artefactos expressivos com noções mais vastas do que as de Belo e de Sublime, por ser a Estética o estudo das obras de expressão, sem que predomine nelas o Belo e o Sublime. Alargou-se o campo do estético até ter significados exteriores ao expressivo, como, por exemplo, dizer-se de um objecto “é estético”, no sentido que apresenta uma forma visível que o coloca na via da apreciação de uma concepção de belo que estaria incluída nele, de agradável, pelo aspecto design, moderno... ou a concepção de “estética” ligada ao mundo dos cosméticos e da moda. Como a anti-estética está para a anulação do Belo e do Sublime e de muitos factores de valorização do expressivo com os quais os artefactos expressivos contavam para atribuir “valor” às obras; o facto de eliminá-los não acarreta destruição do emotivo; não quer isto dizer, portanto, que, no primeiro caso, o leitor sinta emoção e que, no segundo caso, sinta repulsa. A “experiência estética” não é só emotiva, nem o emotivo é sempre uma emoção positiva; é uma consequência da análise das (infinitas) particularidades de uma obra. Neste sentido, uma análise de um texto percorre várias perspectivas num confronto “político”, no sentido lato, com uma obra. O que é o confronto político? É o exame controverso e antitético do que se confronta no texto. É uma oposição-interrogação autónoma que interpela o leitor segundo a imanência do que “ali está”. O que “ali está” é uma complexificação “savantizada” que se considera um artefacto expressivo ficcional, ou para-ficcional.
Numa análise macroscópica, esta obra de Manuel Alegre aparece coerente, dentro dos sistemas e sub-sistemas que existiam na territorialidade portuguesa da época e em relação ao uso da língua poética tradicional; as leis do poético exprimem-se dentro do campo solidário que o escritor estabelece; só que esse campo solidário é minado por outras referências que escapam ao campo macroscópico, referências estranhas ao campo e que abrem o livro para perspectivas que opõem os poemas a dispersos elementos contraditórios que destroem o campo solidário, aparecendo, vistos por uma análise microscópica, as contradições entre estes textos e as percepções artísticas da época; se, para a territorialidade portuguesa, a única visão possível é a macroscópica, na medida em que o país não tinha capacidade crítica de recuo em relação a obras que exprimiam uma luta humana e política, com o passar dos tempos, e mesmo na territorialidade portuguesa, essa coerência macroscópica desapareceu; ela existia em 1965 mas não haveria (não haveria?) probabilidades de a descobrir – de a desvendar. Em contrapartida, fazer derivar esse campo solidário e coerente até hoje é uma concepção que José Carlos de Vasconcelos propõe, dando ao livro, não a eternidade, mas a intemporalidade. Quer isto dizer que José Carlos de Vasconcelos redobra a cegueira com que ele lê a obra, hoje: além de fazer uma leitura unicamente macroscópica relativa a 1965, o crítico quer que se faça, hoje ainda, uma leitura idêntica quanto aos elementos macroscópicos e coesos que atribuíram eventualmente uma coesão, pelo menos política, ao livro de 1965, sem querer fazer uma análise microscópica que determinasse, a cinquenta anos de distância, os elementos incoerentes da obra que, apesar da pseudo-coerência, só a demonstra quando se perde o ponto de vista microscópico e se aceita a visão macroscópica da sua “necessidade”. Quando a própria “necessidade” (política e social) da obra caiu na probabilidade de criar incoerências como, por exemplo, a inadaptação da linguagem ao que politicamente e radicalmente se desejava para lutar contra o regime salazarista. A luta de ideias trasmitida pela poesia de Manuel Alegre é reduzida ao seu aspecto macroscópico; nesta perspectiva, o mental exprimido nos poemas está de acordo com uma ciência poética que diz que, para tal conteúdo, se devem aplicar tais “actos de linguagem” soi-disant poéticos, numa elaboração funcionalista e instrumental determinativa que a obra de expressão não poderá ter; o expressivo tem a ver com as probabilidades dos “actos de linguagem” e dos resultados da sua aplicação ao ficcional, apesar e mesmo quando haja consciência revolucionária. A poesia de Manuel Alegre inscreve-se num determinismo poético que apaga o campo microscópico, dando noções de que a única leitura é a afirmada pelos princípios macroscópicos da coerência da “necessidade”. Uma pluralidade de projecções possíveis, mesmo da ordem do político – para não encarar agora os problemas linguísticos expressivos – estavam presentes já em 1965 se se tivesse feito uma leitura microscópica que aprofundasse o poético. O facto de trabalhar no sentido do tradicional do trovador implica um sistema de leitura que aceita as regras do tradicional que servia o fado de Coimbra, o canto e a emotividade “distractiva” do fado que sensibilizava os estudantes sem lhes transmitir as contradições microscópicas prováveis do próprio sistema social e linguístico. As probabilidades desviantes foram escondidas pela “grandeza” que os leitores viam nela assim como o crítico José Carlos de Vasconcelos lê os poemas procedendo a uma leitura unicamente macroscópica. O crítico não vê as incoerências, a tradicionalidade redutora; para ele a obra é intemporal e artisticamente “réussie”. Além de que José Carlos de Vasconcelos não faz uma crítica independente: os termos são exageradamente laudatórios.
O aspecto macroscópico da poesia de Manuel Alegre determina uma verdade subjectiva num texto que tende para a demonstração veritativa, baseando-se para isso na ética política. Numa perspectiva microscópica os elementos que informam os “actos de linguagem” determinam uma linguagem fixa, organizada pelo estatuto social da língua que lhe permite dizer o “NÓS”. O “NÓS” é uma fixação histórica da sociedade portuguesa que, em 1965 (e sempre!), se movia sem consciência de que uma língua, sobretudo a ficcional - necessariamente a ficcional – sai dos limites da língua, através da linguagem autónoma dos escritores, quando são autónomos, e que, microscopicamente, nenhum autor domina ou antecipa. O trabalho literário é este outro risco que, sem anular a luta travada por Manuel Alegre, pretende a uma linguagem probabilitária que investe na multiplicidade dos sintomas que os “actos de linguagem” provocam na escrita ficcional.
A finalidade destes ensaios não é só a figura do livro e (ou) do escritor citados mas a proposta de uma ideia sobre as expressões artísticas “savantizadas”, prioritariamente na sua função ficcional. No caso de Manuel Alegre, a sua poesia é um reflexo do que o escritor conhecia em 1965; é uma reacção ao meio ambiente que, de perto ou de longe, cria forças “magnéticas” – forças sociais que contêm energia ao ponto de influenciarem as formas de expressão – e que agem sobre as expressões de modo a que elas sejam, não uma causa directa, mas um reflexo compósito de elementos de reacção aos elementos-forças sociais. A reacção pode ser positiva ou negativa, de apoio ou de negação, de reconhecimento ou de indiferença, embora sejam sempre uma reacção que se inscreve imediatamente no artefacto artístico. Neste sentido, a poesia de Manuel Alegre – e de todos os escritores – “reagiu” ao que a sociedade portuguesa fabricava; foi um elemento de “resposta” poética ao que o escritor considerava “necessário”. O meio ambiente produz um comportamento de magnetismo generalizado, sobretudo se as expressões se inscrevem numa resposta macroscópica e se defendem interesses ideologizados, e se se referenciam à língua e à territorialidade sem autonomia crítica. Manuel Alegre, e o poeta é um exemplo, “responde” aos elementos sociais compreensivos e imediatos sem se aperceber que o seu método poético é uma resposta ideológica como os processos desenvolvidos pelos realismos socialistas (ou pelos neo-realismos) pelo facto de que condiciona o poético à compreensão imediata da mensagem sem ter em vista a linguagem que a transmite. Manuel Alegre aceita o que o natural da língua e do mental da língua lhe transmitem. O que significa que a sua poesia entra no campo da intriga contra o poético e contra a intelectualidade que, forçosamente, as expressões “savantizadas” produzem por acumulação milenária, opondo-lhes uma poesia de linguagem preconcebida.
À suivre.

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